quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Fazer as contas

Início da década de 50. A casa que o avô Américo queria comprar, uma casa contígua àquela em que vivia, juntamente com mulher, três filhos e três cunhados, custava treze mil escudos. Treze contos, na linguagem financeira que dominou o século XX português. Era uma casa simples, com dois quartos, chão em tábuas de madeira, que partilhava uma parede com a residência de uma ou duas vacas de respeitável porte. Hoje, essa corte - designação da residência bovina - está vazia, mas ainda me lembro de, em criança, ser acordado pelo mugir impaciente das criaturas.

Para conseguir o dinheiro, o avô Américo decidiu emigrar para o Brasil. A viagem fazia-se pelo mar, durava cerca de um mês e custava pouco menos de seis mil escudos. Seis contos. Pediu o dinheiro emprestado para a viagem. Haveria de o devolver, com juros. O Brasil haveria de lhe dar essa oportunidade, oferecendo-lhe um salário de quarenta escudos por dia. Quarenta paus, depois de bem calculado o câmbio do cruzeiro, moeda oficial do Brasil naqueles tempos. Que trabalho pagava 40$00 por dia? O de calafate. Passar o dia a raspar soalho, piso de madeira, para depois vedar eventuais falhas entre os tacos de madeira, atividade certamente bem marcada por intervalos regados a chopinho. Acredito que o avô Américo gostasse de cerveja.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

A decisão

Como é que se diz a uma mulher, com quem escolhemos partilhar uma vida, em inícios da década de 50, num interior esquecido e abandonado, que se vai para o Brasil tentar a sorte? Como se encaram os filhos com esta notícia nos lábios? Que momento se escolhe para isto? Que espaço?

A decisão de emigrar foi a primeira de duas resoluções de coragem que haveriam de marcar a vida do avô Américo e de todos aqueles que com ele conviviam. Homem mentalmente forte e determinado, o avô Américo via os três filhos crescer e o espaço onde viviam tornar-se cada vez mais exíguo: com a família nuclear viviam ainda três cunhados, todos eles bastante mais novos. Por isso, foi tomando forma a ideia de comprar a casa contígua, que pertencia a uma das personalidades mais conhecidas da aldeia. E a oportunidade surgiu: alguém na aldeia mantinha negócios no Brasil, onde empregava mão de obra, fosse ela local fosse portuguesa. O avô Américo viu ali o momento. E decidiu.

Volto à comunicação da intenção. Terá sido à mesa, durante um jantar bem regado com vinho da terra? Terá sido num qualquer campo, tendo como testemunhas uma qualquer Cabana, Bonita ou Ramalha (nomes de vacas)? Terá sido, à noite, na cama, no aconchego dos cobertores grossíssimos que protegiam de invernos rigorosos? Que palavras? "Lucinda, o irmão do Borges diz que me arranja trabalho no Brasil... E paga bem... Uns dois ou três anitos e dá para comprar a casa..."

terça-feira, 28 de agosto de 2012

A mala do avô Américo

O avô Américo foi um dos 28.104 emigrantes legais que, em 1951, rumaram ao Brasil. Na altura, o fluxo migratório começava a dar sinais de mudança. Depois de um século XIX e de uma primeira metade do século XX massivamente "brasileiros" no que diz respeito à emigração portuguesa, a segunda metade abria portas a outros destinos, nomeadamente europeus como a França e a Suiça. Ainda assim, com 36 anos de idade, o avô Américo achou que o Brasil lhe oferecia garantias de conseguir algo mais do que a sua Quinhão (Tendais, Cinfães) lhe dava. E ao mesmo tempo, que a vida dos que cá ficavam - a mulher Lucinda e os filhos Antero, Gravelina e Maria José - pudesse, também ela, melhorar.
Voltou a casa em 1956 e com ele trouxe duas malas (baús?), que ainda hoje existem e descansam, vazias, na casa da aldeia. Uma delas é a que se apresenta na imagem que acompanha este texto e que recentemente foi alvo de uma mudança de espaço, operação para a qual fui convocado pelo meu pai. Foi ela que me motivou a iniciar este blogue sobre o meu avô materno, um homem que não conheci, mas que me conheceu: faleceu quando eu tinha apenas nove meses.